Ah, os relacionamentos…
Podemos galgar e conquistar sucesso profissional, engordar a conta bancária, gozar de saúde física e intelectual, mas eles, os relacionamentos, continuam a ocupar dentro de nós o lugar de honra que lhes é devido.
São os relacionamentos, por vezes, os únicos capazes de nos levarem ao cume da euforia, ao êxtase máximo e soberano do prazer, ao topo daquilo que entendemos por felicidade.
Ao mesmo tempo, são eles que nos adoecem, que nos empurram aos momentos mais dramáticos e dolorosos – em todos os sentidos – de nossa história e da percepção que temos dela.
Ah, os relacionamentos…
Ficamos por aí tentando nos agarrar a modelos, àquilo que um dia nos ensinaram ou aprendemos sem que ninguém nos ensinasse.
Vamos crescendo assim: chorando e sorrindo com os romances do cinema, suspirando com os beijos da tv, tentando entender o amor de nossos pais, invejando e repudiando relacionamentos alheios, enquanto, internamente, lutamos para decifrar sentimentos e acumulamos expectativas reais e irreais.
Desde os primórdios, os humanos se acostumaram a ditar regras sobre o amor, numa ânsia compulsiva de se convencer delas, mesmo que nunca tivessem a eficiência atestada.
Entre encantos e desencantos, frios na barriga e DRs desastrosas, a humanidade segue em busca de uma verdade sobre os relacionamentos.
Queremos ser compreendidos, queremos ser amados, queremos nossos desejos prontamente atendidos, queremos a satisfação pelo outro.
Queremos tanta coisa…
Os que se dizem mais avançados, maduros e experientes na sempre frágil ciência do amor, pregam um equilíbrio jamais encontrado. Doutrinam com base na ordem do “tem de ceder, tem de se adaptar, tem de abrir mão”. E, sabendo o que tem de ser feito, rastejamos atrás da comprovação empírica.
Ah, os relacionamentos…
Insanidade, loucura, invencionice, esbravejam os desiludidos com a pretensão de serem realistas. Como pode duas pessoas distintas aprenderem a ser uma só ou a se transformarem em uma outra pelo outro?
Quanta gente, alicerçada na própria trajetória, empacou, travou, desistiu, cansou, enojou pelo caminho.
Quanta gente complicou o complicado.
Ah, os relacionamentos…
Sem entendê-los, um dia ousaram cantar que “o pra sempre” sempre acaba, como que minando a esperança ou sopros dela.
Quanta gente se convenceu disso.
Na era das redes sociais, o vício pela novidade ganhou poder de destruição e ajudou a sufocar o “pra sempre”.
Pobre, “pra sempre”…
Com lógica semelhante à do universo virtual, a efemeridade contaminou nossos relacionamentos, distorcendo sensações.
Na interminável lista dos nossos quereres, queremos algo novo, a todo instante. Queremos atualizações, queremos retuítes, queremos curtições.
Se a página fica velha, perde valor.
Ah, os relacionamentos…
Ah, o “pra sempre”, ressuscitado somente quando o outro cai na vala da normalidade, da qual nenhum ser vivente pode escapar. Quando o príncipe encantado despenca do cavalo. Quando as rosas revelam espinhos.
Ah, o “pra sempre”, construído na rotina, na mesmice, no cotidiano, no comum, na normalidade, no desencanto e em tantas outras situações sempre apresentadas a nós como “o fim”.
Ah, o “pra sempre”, conquistado por quem compreendeu o amor além da paixão, por quem conseguiu sair de si mesmo, por quem aprendeu a enxergar no outro novidade e estímulos constantes.
O “pra sempre” nem sempre acaba.
Nós é quem escolhemos acabar com ele.